A certeza sobre o meu futuro durou pouco tempo

Tornei-me cética e desconfiada

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Fotografia © Ana Pereira
Fotografia © Ana Pereira | Design © Laura Almeida Azevedo

O que queres ser quando fores grande? «Professora primária», respondia prontamente a criança que eu era. Naquela altura, tinha o mesmo sonho que muitas meninas da minha idade. A minha professora era a minha referência e desejava ser como ela. Fascinava-me a sua figura autoritária que impunha respeito não só a nós, seus alunos, como a todas as pessoas lá da terra. Sendo eu espevitada e de resposta sempre pronta na ponta da língua, a ideia de, um dia, poder mandar nos outros e impingir-lhes a minha vontade encantava-me.

A certeza sobre o meu futuro durou pouco tempo.

A certeza sobre o meu futuro durou pouco tempo. Com o passar dos anos, as opções foram variando e as dúvidas aumentando. Fui distanciando-me cada vez mais da ideia de que vivera no meu imaginário infantil, mas nenhuma das hipóteses que se seguiram aproximaram-se daquela que acabou por ser, no último momento, a minha escolha. Andei à deriva até acabar por cair numa área que nunca fizera parte das minhas preferências.

Hoje, vivo por entre as contas alheias, verifico débitos e créditos com olhar cada vez mais descrente. Tento descortinar por entre feitos de engenharia financeira e o (des)controlo da gestão daqueles que tudo querem, mas não têm como. Aos bons exemplos, que também os há, aplaudo-os de pé. Percebo, agora, o quão difícil é remar contra a maré do facilitismo e da impunidade. Num país onde todos querem mandar, mas poucos sabem como, onde as regras mudam à mercê da vontade de meia dúzia, onde todos têm uma opinião, mas poucos estão dispostos ao trabalho do fazer, é obra.

A menina, que desejava ser professora, hoje teria pouco para ensinar. Na teoria tudo soa bem e tem lógica, mas, na prática, tudo se revela passível das mais diversas interpretações, tudo é adaptável à lei do que dá mais jeito.

Sinto que desaprendo mais do que aprendo.

Sinto que desaprendo mais do que aprendo. O pouco que sei entristece-me e pouco me acrescenta. Tornei-me cética e desconfiada.

Hoje, aquela miúda espevitada esmoreceu pelo caminho e já não quer mandar em ninguém. Hoje, a mulher — que, em tempos, foi aquela miúda espevitada — apenas quer um emprego que lhe pague as contas e sabe que até este já teve dias melhores.

Hoje, a menina e a mulher começaram este texto com um sorriso desenhado no rosto pelas recordações do passado, um sorriso que se foi apagando com as palavras, à medida que os sonhos da menina de ontem acabaram na realidade da mulher de hoje.

O que queres ser quando fores grande? «Não sei», responde a mulher, conformada, mas ainda não derrotada.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.