Só naquele dia é que te vi realmente

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Fotografia © Catarina Andrade | Design © Laura Almeida Azevedo

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embro-me da primeira vez que te vi. Estavas sentado num banco do átrio da faculdade. Entre os teus amigos, parecias sempre o mais confiante e desejável do grupo, a pessoa que anima a festa e que não se cansa de rir. Era fácil sentir-me atraída por ti nesses momentos – irradiavas felicidade.

No entanto, quando estavas sozinho, as coisas nem sempre eram assim. Parecia que carregavas o mundo nos ombros, como se um erro, um passo em falso ou até um desvio de olhar o fizesse desmoronar para sempre. Não conseguia perceber a cruz que carregavas, ou talvez o pesadelo que vivias, para que o teu rosto, nesses momentos, vivesse tão fechado como um dia deinverno.

Apesar de nunca te ter falado e de nem sequer ter estado perto de ti, conhecia melhor do que ninguém os teus passos, as tuas feições, as tuas expressões e, melhor do que tudo, os teus olhos, que não consegui esquecer desde o primeiro dia em que também olhaste para mim. Eram verdes e pareciam despertar a atenção de tudo aquilo em que punhas a vista em cima, como se o mundo parasse por instantes para te ver passar.

Já tinha olhado para ti muitas vezes, acho que até podia dizer que te conhecia de vista, mas só naquele dia é que te vi realmente. Era um dia como outro qualquer, tinha acabado de entrar na faculdade e ia atrasada para a primeira aula da manhã, como acontecia frequentemente. Ia a pensar em que sala seria a aula, que aula iria ter, porque o ano ainda ia a meio e eu só ia conseguir decorar o horário quando o próximo ano letivo começasse.

E foi perdida nestes pensamentos que encontrei os teus olhos a fixarem os meus, como quem procura uma salvação, um porto mais do que seguro ao qual pudesse voltar sempre e para sempre. Tive a sensação de que me lias por dentro, que sabias de tudo o que me passava pela cabeça. Quase jurei que ninguém, alguma vez, me tinha olhado assim. Foi como se eu tivesse sido invisível até àquele momento, como se ainda ninguém me tivesse visto como eu era de verdade.

Não sei se te sorri, se fiquei simplesmente parada a observar-te, ou se continuei a caminhar, enquanto te acompanhava com o olhar. A única recordação que tenho desse dia é uma sensação de estranheza dentro do corpo, que ainda hoje sinto de cada vez que penso em ti, como se alguma coisa quisesse fugir de dentro mim – como se sentisse borboletas a bater as asas com toda a força.

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CATARINA ANDRADE, a psicóloga a bordo
Tem 27 anos. É psicóloga de formação e assistente de bordo de profissão. Sempre gostou de escrever e, se lhe perguntarem, não se lembra de quando o começou a fazer. Como sempre foi muito crítica para consigo própria, deitava fora quase tudo o que escrevia. Agora, vai-se deixar disso. É este o desafio.