Partir

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Queria tanto o que não chegava. Era demasiado intensa a vontade de acolher aquilo que tardava em vir até si. E isso perturbava-a. Deixava-a num misto de medo e de alegria. Medo: porque duvidava. Alegria: porque ainda não perdera a fé. Havia sempre um deles que teimava em roubar o protagonismo ao outro; a sua mente, estranhamente caprichosa, era senhora para, repentinamente, mudar de ideias e alterar a posição do que decidira colocar à dianteira. O seu coração batia descompassadamente com a imprevisibilidade de conhecer a ordem de entrada em cena. Querer tem destas coisas. Assim, como dá o chão para o sonho acontecer, também rouba o conforto de saber com o que contar. Talvez estivesse a ser imprudente ao desejar embarcar em viagens que não lhe estavam destinadas. Mas, verdade seja dita, não queria saber o que lhe estava ou não destinado. Isso eram outras histórias que nada tinham a ver com a responsabilidade, que era apenas sua, de aproveitar as oportunidades para concretizar o que o seu coração suplicava. E era indiscutível que ele implorava por partir. Nunca fora tão explícita tal vontade. O seu coração não a deixava mentir; só assim compreendia a agitação que a atingia de modo tão permanente.

Desconhecia o lugar onde queria chegar, apenas a vontade de decidir partir a atingia em pleno. A vida ensinara-lhe a dispensar as expetativas. O que viesse seria bem-vindo, para o bem e para o mal. Porque seria, tão-somente, a razão de ter partido. De cada vez que silenciava o bater do coração, era capaz de jurar que ouvia uma voz que lhe segredava para não ter medo e a sua persistência, ao repeti-lo, inquietava-a por mais que fingisse ignorá-la. Partir. Sentia-se esvaziada do tanto em que acreditara que apenas ponderava partir para recomeçar. Em dualidade permanente, não deixava de reconhecer em si a angústia de largar definitivamente o que vivera com todo o seu ser. Sempre a mesma nostalgia por tudo o que um dia fizera bater o seu coração. Basta. Partir para criar novas memórias que a deixassem mais próxima do que era a sua essência, pois o que dela já conhecia levantava a incómoda suspeita de que se não o fizesse, no futuro, arrepender-se-ia fatalmente da sua cobardia ao não atender um pedido tão sincero do seu querido coração. Bastavam-lhe os arrependimentos de uma vida demasiado sonhada. Mas também isso não fazia a mais pequena diferença. Eram outras histórias. A vida quer-se vivida de sonhos e não sonhada de sonhos. Largar o aconchego da nuvem imaculada e deixar-se envolver na nuvem de pó que se levanta quando se decide partir disposto a ser o que em si lateja, sem a garantia de que seja fácil e imediato. Menos fácil seria, se, um dia, a memória a surpreendesse para confrontá-la com o sonho esquecido numa nuvem de contornos curvos, irrepreensível, esvaziada de histórias para contar na primeira pessoa. Prefere, em absoluto, um dia, lembrar-se da loucura de ter partido.

Os sonhos não existem para ser adornos da vida. Longe de se tornarem dispensáveis, apesar de tantas vezes lhes ser imputada a culpa de algumas cabeças viverem no mundo da Lua, são a sinalética mais colorida e exuberante para avaliar possibilidades, fazer escolhas, tomar decisões, prosseguir, abrindo caminho com determinação para, diariamente, viver sob a sua mira. Os sonhos não são devaneios de uma mente sonhadora. São, antes, a expressão verdadeira e sentida da alma que se inquieta quando a ignoram. Não será estranho que as crianças vivam permanentemente de sonhos, tantos, e deles se apropriem de um modo familiar que desconcerta os mais velhos. Longe de sonhar com as teias em que serão enredadas para lhe suster o impulso de grande sonhar, as almas jovens são isentas. Elas não consideram sequer não atingir porque, simplesmente, vivem para o sonho. Só não alcança quem desdenha do poder do sonho mais singelo. Largar os pesos que a impediam de se evadir para viver o sonho de partir era a única condição para embarcar na viagem com que sonhava.

O seu sonho carecia de originalidade. A sua memória mais longínqua do tempo de sonhar, trazia-lhe à lembrança o desejo de um dia partir para se encontrar num mundo que não conhecia. Partir para se deixar surpreender com amanheceres cheios de promessas. Partir para encontrar tesouros que não se seguram nas mãos. Partir para acolher no seu coração a grandiosidade do tempo não marcado. Partir para desafiar os sentidos a rebelarem-se com o inusitado. Partir para soltar os espartilhos que restringem o oxigénio que aflui às células, sedentas de vida que as agite. Partir para se deixar embevecer com a beleza das paisagens; nelas sempre encontrara o repouso e a esperança que jamais se atreveram a dissuadi-la de viver no mundo da Lua. Queria partir para formalizar que o seu passado era lição aprendida. Queria partir para deixar de chorar por aqueles que a vida afastara de si. Queria partir para sonhar novos sonhos que fizessem jus à pessoa em que se tornara. Quando menina nunca duvidou de que, um dia, seria tomada pela coragem de lutar para chegar onde sonhava ir. Pois, chegara a hora de chamar pela coragem e, com um sorriso de fé, partir. Adorava a força da palavra. Partir. Era curta e fina. Curta porque retirava todo o espaço de manobra para a tornar discutível. Instantaneamente, a decisão tornava-se irrevogável. Fina porque, num único sonho, outros nele cabiam. Era uma palavra pequena para um grande sonho. Imediatamente, a certeza de viver para o realizar era já uma decisão tomada. Sorriu com satisfação. Iria realizar o seu sonho de menina. Os seus olhos cruzaram-se com os da menina que o sonhou. As lágrimas marearam o brilho dos seus olhos. Há tanto tempo que sonhava com aquele reencontro. Ainda não partira, mas a decisão de fazê-lo amaciou o seu coração, que se permitiu chorar de emoção. Fará quando largasse as amarras que ainda a mantinham refém dos seus pesos. Já não faltava muito tempo. Sentia-o. Fazê-lo por si, para ficar para os outros com verdade.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.