Cronologia de um sentimento — 2ª Parte

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Antes de leres esta parte da história,
lê a Parte 1 aqui.

Desde muito cedo que percebi que alguém a tinha feito sofrer e que ainda existiam sentimentos. Quando senti isso, pensava nela como alguém que já era, sem dúvida especial, para mim. Mas não mais do que isso. Dava por mim a tentar fazê-la sentir-se bem, a dizer-lhe coisas simples, como o facto de ninguém merecer o nosso sofrimento, a ninguém podermos dar a responsabilidade de nos fazer felizes.

Uma vez disse-me que estava naquele lugar junto ao mar — que para mim, mais tarde, passou a ser o nosso e concluí, penso que não erradamente, que fosse para que o mar lhe levasse esses pensamentos e pudesse arrumar as ideias. Fiz uma daquelas coisas parvas que também me tinham feito uns meses antes, enviando-lhe uma imagem de um cirurgião com um coração aberto na mão, que dizia, por outras palavras, a seguinte mensagem: «Vês? Aqui não existe ninguém. Segue em frente.» Fiz isto porque me ri quando a recebi, e só queria fazê-la rir naquele momento também.

Se pudesse, naquele dia, dava-lhe um abraço apertado; apanhava-lhe todos os vidros que existiam pelo chão, que ela mais tarde confirmou, para que se pudesse libertar daquela dor.

Hoje, dou por mim a pensar se, naquela altura, eu já pensava nela de outra forma e com outro interesse. Sinceramente, não. Recordo-me perfeitamente que, naqueles tempos, eu andava feliz, mas comigo mesmo, pelo facto de estar bem em solitude. Estava tão bem que até tinha medo de estragar. Mas já dava por mim a pensar que poderia não estar a conhecer uma mulher de muita confiança, pois andava num triângulo amoroso com um tal de nome inglês, chamado Work, que lhe exigia total dedicação e não lhe permitia ter vida própria, uma loucura a um espanhol chamado Barcelona (ela percebe muito mais de desportos que eu), e o amor a um argentino, por sinal bem pequenino. Ainda bem que ela ainda não tirou nenhuma fotografia ao lado dele, porque senão era ele que precisava de uns saltos altos para chegar à altura dela.

Foi em frente à praia, já madrugada adentro, depois de nos termos perdido nas horas de conversa, que lhe tive que provar com a cumplicidade de um poste de iluminação e um livro que era mais alto que ela uns «bons» centímetros e, mesmo assim, não ficou convencida. Confirmava-se que ela dizia a verdade, não por ser mais alta, mas por ser teimosa, tal como quem não gosta de perder nem a feijões. Neste caso, nem em altura.

Comecei a acreditar na possibilidade de haver defeitos perfeitos para me tramar quando a ouvia a falar dos dela. A vida não é fácil para ela, como fácil era para mim reconhecer essa realidade por a conhecer bem há muitos anos. O que me espanta é o sorriso na cara com que enfrenta as dificuldades. Imaginei, muitas vezes, o diálogo naquela cabecinha tão dura como linda em que ela conversava com a vida e lhe respondia que, se era isso que ela lhe dava a fazer naquele momento, então o faria a sorrir e de mangas arregaçadas como na primeira vez que a vi.

Um outro sentimento começou a nascer em mim e quem seria a culpada? Orgulho. Orgulho – que sei que vou ter pela mulher que desejo ao meu lado e mãe dos meus filhos — pelos princípios dela. Sim, aqui já as coisas estavam complicadas para meu lado. Também não era difícil. A partir daquele momento, senti que estava por minha conta e risco. Não sabia onde isto me iria levar, mas já desconfiava. Mas que fazer? Estava a ser tão bom. Uma vez, disse-lhe que talvez a mulher da minha vida ainda não tivesse nascido ou já teria morrido. Parvoíce à parte, o que eu chego à conclusão é que a mulher que eu ousei procurar, mas já nem na sua existência pensava, porque poderia não existir mesmo, estava à minha frente e a falar comigo. É verdade: quando paramos de procurar, encontramos.

Não acredito em pessoas perfeitas do mesmo modo que não acredito na existência da pessoa «certa», a quem damos a obrigação de nos fazer felizes. Mas acredito em almas iguais que querem construir exatamente o mesmo na vida, intelectualmente honestas e estimulantes, que, se o coração descobrir que amam alguém, vão querer lutar lado a lado e estarão totalmente dispostas a fazer dar certo, mesmo que com muito medo. Vão querer arriscar porque o sonho de serem felizes é muito maior que elas.

Aqueles momentos, em que um gesto ou uma atitude me deixavam com um sorriso no rosto, já haviam muitos. Mas, quando lhe perguntei se não estava na altura de se preocupar mais com ela do que com os outros e me responde «se eles estão bem, eu estou bem», que dizer? Aquela voz era a dela, mas parecia a de um anjo dentro da minha cabeça. Disfarcei de tal modo, para que ela não percebesse a importância que dei àquilo que tinha acabado de ouvir, mas nunca mais me saiu do pensamento.

Durante meses, senti que me estava a por à prova, o que nunca me incomodou. Bem pelo contrário. Adorava o facto de ter conhecido uma mulher que tivesse a necessidade de o fazer. Não sabia se estava a passar nos testes ou não, mas ela passava com distinção e louvor no maior e único que me interessava. Nunca me tentar iludir e isso diz tudo sobre ela.

Ainda só passou uma semana desde que, meio sem jeito, lhe disse que a estava a amar e a tudo o que estava a viver por causa dela – só para lhe confirmar tudo que eu já sabia que ela sabia, não fosse ela extremamente inteligente.

Sinto-me tão confortável com este sentimento que sinto e isso deve-se totalmente ao modo como a reconheci. Não foram os olhos. Não foi sequer o coração. Foi a alma. Essa não engana. O que sinto por ela a todo momento é o mesmo que dizes que duas almas sentem quando se encontram: saudades. O meu poder de sonhar sempre me levou acreditar que a magia existe e que, um dia, a iria encontrar.

É inteligente, é autêntica, é linda de morrer e tem a maior das qualidades: um coração enorme e puro. E não consigo esquecer o que senti na primeira vez que a vi. Aquele click, sabes? Ao que responde a (in)sensibilidade, em pessoa, do meu amigo Rui: «Txiiiiiiii… Isso tudo? Já te f@d£§#$!» Que é como quem diga: «Já te lixaste!»

É especial. E isso não é sequer o melhor que tenho a dizer sobre ela.

Um dia, digo-lho pessoalmente.

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MOISÉS SALDANHA, O Berdadeiro totó
É feliz do seu jeito. É Engenheiro Civil e vive em Angola. Começou a escrever por prescrição médica - verdade - para se esclarecer e pensar ou até mesmo para esquecer. Pela falta de especial inteligência, combate-a com trabalho. À falta de talento e técnicas de escrita, recorre ao coração para transmitir o que quer: sentimentos. Por acreditar num mundo de fantasia e amor já quebrou a cara. Com a verdadeira pronúncia do norte, isto faz dele o «berdadeiro» totó.