Este cheiro a ti

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Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Acordo na madrugada inquieta. Estou tão desperta como se tivesse tido uma boa noite de sono, descansado e repousante. Só que são três da manhã e o sono fugiu-me.

Sinto-me desconfortável. A barriga doí-me. Reflete o estado de ansiedade em que me encontro. A noite permanece negra lá fora. Parece interminável. Não sei o que fazer.

Cansada de andar às voltas na cama, levanto-me e vou à casa de banho, mesmo sem vontade. Preciso de andar. Entretanto, lembro-me de fazer um chá. Regresso à cama com a chávena a fumegar e pouso-a na mesa de cabeceira.

Sinto-me tão cansada. Vivo num permanente estado de ansiedade, que varia entre o estado já considerado normal, para mim e para os que me conhecem bem, e os seus momentos de pico. Como ainda há pouco. Acordar, de repente, sentindo-me inquieta e ansiosa, não é assim tão estranho. O que me aflige é quando não encontro justificação para isso, o que me leva a pensar que vem algo de ruim a caminho. É quase sempre assim. Abano a cabeça numa tentativa de afastar este pensamento negativo.

Sinto sempre um vazio tão grande quando vais para fora. Fico nostálgica, estranha. Como se me faltasse qualquer coisa, uma peça fundamental para funcionar em pleno no dia a dia. Racionalmente não faz sentido, mas, cá dentro, nem questiono isso. Porque só faz sentido para quem ama. É claro que a nossa vida não para, mas faz diferença. Não sei explicar. Mesmo sem nos darmos conta, a saudade pesa e leva-nos a arrastar pelos dias, até ela nos deixar, ou então até nos habituarmos a ela.

Aconchego-me novamente sob a roupa da cama. Olho para o lado e vejo a tua almofada. Aquela onde pousas os teus sonhos à noite. Puxo-a. Aperto-a junto a mim. O teu cheiro está aqui embrenhado. Inspiro.

O teu cheiro acorda uma série de memórias adormecidas pelo discorrer dos anos. Vejo a passar, perante os meus olhos, a nossa história. Os momentos decisivos, os mais memoráveis e até os mais engraçados. Sorrio. Somos dois trapalhões. Estamos bem um para o outro.

Sinto-me menos inquieta. Aliás, uma tranquilidade inesperada toma conta de mim. É como se o teu cheiro fosse um misto de ansiolítico e analgésico, para a angústia e para a dor. Sei que regressas daqui a umas semanas, mas precisava que estivesses aqui comigo.

Ajeito-me melhor na cama, com a tua almofada junto a mim. Acabo por adormecer e o chá, já frio, ficou ali esquecido.

Daqui a uns dias, estás aqui e nada de mau aconteceu.

Espero eu.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.