Já ouviste falar da síndrome do impostor?

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Fotografia © Negative Space | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

#Sindromedoimpostor

Já alguma vez ouviste falar da síndrome do impostor?

Eu todos os dias acordo cedo. Faço o que todo o comum mortal faz: arrasto-me até à máquina do café e sorvo um shot de café duma assentada. O que faço a seguir a maioria não faz: bebo mais um.

O meu estado do espírito passa de «a vida é a uma merda» para «até os comemos» em aproximadamente 5 minutos. É espetacular. Eu sei que não estou sozinho. #coffeegang

Mas os dois parágrafo anteriores serviram apenas para contextualizar como é que o meu dia começa há 21 anos.

Vamos ao que interessa:

O meu primeiro trabalho foi aos 16, mas «só» comecei a trabalhar non-stop aos 19. Não vou dizer que foi fácil. Não foi. Dias de 12 horas. Noitadas (comum em tecnologia). Mas hoje tenho projetos significativos no meu currículo, alguns deles bastante grandes. Tenho todos os motivos e mais alguns para me sentir confiante, orgulhoso, concretizado.

E é aqui que o problema começa.

Não estou. Sinto-me um impostor.

Todos os dias são dias de relativo stress. Uns melhores. Outros piores. Porque todos os dias sinto que não atingi o que preciso e, mesmo que atinja, rapidamente estabeleço novos objetivos ainda mais altos.

Isto é proporcionalmente mais ridículo quanto mais sucesso existe. E é aqui que, quando se encontra alguém que teve «menos sucesso» (já vamos ver o que é o sucesso, muitas vezes isto é só medido numa dimensão financeira), ele acha que és parvo.

Mas eu tenho os meus motivos.

Todos os dias, conheço pessoas que me deixam abismado com o nível de conhecimento que têm. Imediatamente, sinto-me uma formiga. Todos os dias, lido com pessoas com 40 anos de currículo, sumidades de conhecimento e experiência. Todos os dias, conheço pessoas onde denoto um nível de sucesso incrível em componentes familiares ou de cariz social e, consequentemente, penso que não faço o suficiente em casa ou para a sociedade.

Identificas-te com o que escrevi em cima? Então, és um impostor, como eu.

E como é que eu lido com isto?

Como tudo na vida, uns dias bem, uns dias mal.

Há alturas que penso exaustivamente como melhorar. Afinal de contas, sou um impostor, ninguém pode descobrir e ainda vou a tempo de corrigir a situação.

Depois, há dias em que acordo a pensar que até nem sou assim tão impostor, até já fiz umas coisas, mas que tenho que evoluir rapidamente, pois estou a perder terreno para os outros e, como tal, rapidamente me vou tornar um impostor.

Depois, há dias engraçados, em que me sinto o maior. Eu é que sei, estudo muito, sei sobre muito, até que alguém fala sobre algo que não percebo e que eu acho (porque há coisas que não percebo que devia perceber) que deveria saber. Nesse momento, sorrio e, na minha cabeça, acontece o seguinte:

Vocês já viram aquela parte do Sozinho em Casa? Não viram? Passa sempre no Natal há cerca de 20 anos, mas fica mais aqui o link.

Por isso, muitas vezes dou por mim a pensar como melhorar. Como posso ser melhor e a todos os níveis e começo a mudar comportamentos, a ler mais, a ouvir mais podcasts, a estudar mais e a tentar ser melhor pessoa. Depois, chega um ponto em que entro em desespero porque estou, por exemplo, a fazer 3 cursos diferentes, a ler 2 livros, a ler vários artigos online, a tentar acompanhar o mercado (de TI empresarial) e, claro, a desempenhar as minhas normais funções enquanto profissional. Depois, o cansaço óbvio de não conseguir dormir cedo e continuar a acordar cedo faz-se sentir e muito rapidamente entro numa espiral de frustração porque não consigo aprender o suficientemente depressa, clara e novamente, sentido-me um impostor.

A parte séria

O que é preciso entender aqui é que o sentimento de impostor não pode ser considerado ao extremo e deve, em vez disso, ser manipulado como uma ferramenta que usamos para sermos melhores. No entanto, há três fatores importantes:

1. Ser realista com aquilo que são as capacidades possíveis de evolução. O exemplo que dei acima é real. Fazer aquilo tudo é descabido e irrealista.

2. Descansar, pois sem descanso não há evolução. Descansar significa não estudar/trabalhar e encontrar hobbies. É essencial saber parar, dormir. É essencial.

3. Por vezes, não ser o melhor não é uma coisa má e apenas é expectável e saudável. O que devemos fazer é apenas sentir os nossos instintos, ter princípios. Normalmente, tudo corre bem.

Se és impostor, como eu, ficaste pelo menos com a certeza de que não estás sozinho e talvez aquilo que escrevi te ajude para alcançar um caminho mais equilibrado na vida.

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NUNO ABRANTES, o geek
Considera-se um millenial de 40 anos. Começou a brincar com computadores quando tinha uns 10 anos. Adora sistemas e como estes podem ser estruturados para resolver problemas. Apesar de geek, não vive só para computadores. É apaixonado por fotografia, música e sentimentos. Não vive sem café ou chá. E iniciou-se agora na escrita para partilhar o que sente e vê.