
Há palavras que misteriosamente nos conquistam antes de ser. Sem que se lhe reconheça o seu significado, ecoam dentro de nós, ajustando-se inexplicavelmente e preenchendo o nosso sentir como se, há muito tempo, já fizessem parte do nosso vocabulário.
«Felicidade» não é uma dessas palavras! A sua fonética não me agrada particularmente. É uma palavra que obriga a ter alguma disponibilidade para a pronunciar. Cria ansiedade porque tarda até alcançarmos a última sílaba. «Felicidade»: ao articulá-la há nela pequenos tropeções vocais que impedem que seja assinalada com demasiada rapidez. A dominância dos i’s não me é, particularmente, querida. Quando é verbalizada, os lábios estreitam-se e a boca não se abre em demasia e a desdita é acometida, despropositadamente, de trejeitos finos e arrogantes, que dificultam um contacto estreito e afável. Daí que não haja consenso quanto ao seu significado. Dentro da boca, longe de olhares indiscretos, os dentes e a língua movem-se de forma minuciosa, respeitando a fonética da palavra. «Felicidade» dá ares de uma formalidade — talvez, por isso, poucos sejam os que a conheçam com rigor e, bastantes os que duvidam da sua acessibilidade. Os seus modos fonéticos a roçar o elitismo afastam-na do comum dos mortais e a superioridade que exibe torna-la, no entanto, a mais desejada por todos.
Em ocasiões especiais, a felicidade é um dos votos mais expressos àqueles que nos são mais queridos. Não há ser humano que não aspire ser feliz. Mas a felicidade fecha-se no seu castelo e não dá pistas. E assim, cada um, individualmente, desbrava por si, e em si, caminhos que permitam conduzi-lo àquele estado de graça. A felicidade compete com outros estados que reforçam a sua existência, ou lhe dão o mote para a sua emergência. Algumas das suas peculiaridades revelam-se únicas em cada indivíduo, dependendo de múltiplos fatores o modo como as introduzirão no seu quotidiano. Porém, é um facto indiscutível que todos aspiram ter um encontro com a felicidade. E, se assim é, será porque já vivenciaram vislumbres do seu poder, sem que, contudo, fossem capazes de a tornar permanente nas suas vidas.
A felicidade não devia estar incrustada tão-somente ao instante em que algo aprazível se concretiza, mas antes a todo o processo que conduziu a esse momento. Não nos sentirmos apenas completos no instante da apoteose, mas regozijarmo-nos com todos os acontecimentos que confluíram para o triunfo ou não do que nos propusemos atingir.
A felicidade devia ser um modo de vida. Porque não? Mas, para assim ser, precisamos de estar disponíveis para uma aprendizagem diária e fazê-lo sempre com o coração desperto. Robin Sharma, no livro «O Santo, o Surfista e a Executiva», afirma: «Um dos maiores desejos dos nossos corações é que sejamos exploradores, viajando pela vida com uma sensação de maravilha e de assombro, mas isso não acontecerá se nos fecharmos para as possibilidades da vida. Precisamos de abdicar de todas as noções preconcebidas de como as nossas vidas deveriam ser e do que necessitamos para sermos felizes.»
Temos, no nosso dia-a-dia, muitos momentos que desprestigiamos, desde logo, porque não se ouve o ribombar dos tambores. Um erro! Há que reconhecer a beleza da simplicidade, contemplá-la, reconhecer o que lhe é único, seja o bom ou o mau, usufruir de cada sensação e de cada emoção com imensa felicidade. Por exemplo, quando seguramos na nossa mão uma maçã, se estivermos mentalmente disponíveis, ficaremos cara a cara com a felicidade. A maçã oferece-nos a oportunidade de despertarmos todos os nossos sentidos, identificando a sua cor, a sua textura, a sua densidade, o seu aroma, a sua forma. Não duvidaremos que estamos vivos, o que é uma graça. E a felicidade é isso! Ao interagir com a maçã, a nossa criatividade é desafiada e outras facetas do nosso ser revelam-se. Bastará dar-lhe uma trincadela ou usá-la para confecionar um bolo de maçã. E o estado de graça é superado.
Creio que a felicidade não se trata de algo a atingir, mas sobretudo de um modo de estar e ser. A felicidade constrói-se no dia-a-dia para que permaneça em nós. Nada fácil, por sinal. Mas há que ser disciplinado e treinar um pouco todos os dias, faça sol ou faça chuva. Robin Sharma refere, no mesmo livro, que a dor é uma dádiva e, curiosamente, os videntes da Antiguidade acreditavam que as pessoas que mais sofriam eram as mais abençoadas. Afirma ainda: «Todos nós temos de suportar as trevas, mas elas acabam sempre por passar e dar lugar à luz. É nessa altura que compreendemos melhor os nossos problemas e nos aproximamos das soluções. E é quando estamos a passar pela dor mais profunda que uma grande paz vem ao nosso encontro.»
Cada um de nós tem que aprender a conhecer-se, a respeitar-se enquanto indivíduo, abrir o seu coração, e com amor descobrir em si a felicidade para bem viver. A forma como cada um o faz dependerá das venturas e desventuras já vividas.
A fonética da palavra «Felicidade» talvez seja um prenúncio do que há, por nós, a fazer para nas nossas vidas torná-la presente:
– a disponibilidade para pensar felicidade significa refletir, a cada dia que passa, no que por ela fazemos para a ter presente;
– a ansiedade em atingir a última sílaba, só porque, afinal, não é o fim em si mesmo que importa; há que desfrutar de cada momento e dele retirar todas as suas riquezas;
– os tropeções vocais, que travam a articulação da palavra felicidade, alertam para o facto intransponível de sermos obrigados a lidar várias vezes com a dor e, ainda assim, vivermos com o sentido de felicidade;
– o tempo que é necessário para a verbalizar, tal como nós também precisamos de tempo para aprender a viver em felicidade.
Para os que se dão à vida, fazendo desta uma busca permanente de como viver em estado de graça, a arrogância é apenas um desafio a ultrapassar, tal como o elitismo não passa de uma provocação.
Enquanto os que optam por fixar-se nas dificuldades têm aí uma excelente e dramática desculpa para não arriscarem viver a felicidade, os inconformados procurarão incansavelmente vivê-la, sem se fixarem desmesuradamente nas batalhas vividas, investindo com esperança nas táticas que vão ousando experimentar para sentir, num contínuo, a felicidade.




