
Resolvi assentar praça nesta linha que é a vida e observar, tão simples como isso. Observar. Pensar, refletir sobre uma viagem com uma intensidade abrupta, com vivências conturbadas, com lágrimas derramadas e com sorrisos semeados noutros sorrisos! Esta viagem que é a vida, sabes. Para mim, esta é a viagem mais importante que alguma vez iremos fazer, tu e eu. Quando nascemos já temos uma longa viagem feita dentro do ventre da nossa mãe, aquela mulher que nos trata já com tanto amor, mesmo antes de nos conhecer! Já estamos em viagem e já somos amados e, se repararmos, é tão-somente o primórdio desta viagem. Já alguma vez tinhas parado para pensar nisto? A viagem começa com o amor que sentimos dentro do primeiro comboio que apanhamos para este longo caminho, e oxalá seja longo… muito longo. É este o primórdio de todas as vivências, de todas as experiências, o amor!
Como escrever é uma das coisas que mais me apraz na minha passagem por esta estação, que é a vida, por que não escrever sobre o amor? Não me tornarei repetitiva, prometo-te! Mas tão bem que me sabe saborear o amor com o amor! Não falo só do amor de paixão, aquele que nos faz ficar baralhados, aquele que nos leva a todos os extremos da loucura, aquele amor que se torna até obsessivo de tanto querermos o outro como se não houvesse amanhã. Já te sentiste enamorado assim, não já? Paira na tua memória, de certeza, e consigo ver-te sorrir, e as tuas bochechas estão coladas aos olhos, quando recordas como conseguiste fazer a maior das loucuras, sabendo todos os riscos que corrias. Até o frio na barriga consegui sentir agora, verdade? Mas não é só desse amor que te falo, relembro. Falo-te de um amor terno também, além do amor cor de fogo, quente e que nos abrasa completamente por dentro! O corpo e alma vibram juntos nesse registo de amor! Falo-te também de um amor tranquilo, puro, um misto de admiração e encantamento que chega logo no início da nossa viagem, o amor àqueles que nos deram o ser, ou nos tomaram como seus de forma única e exemplar, os nossos pais. Aposto que tens gravado na tua mente o cheiro da tua mãe, verdade?
A forma serena e única com que te acolhia no colo sempre que as coisas te corriam menos bem. Há também aquelas mães de menos afetos, porque a vida as ensinou a serem mais práticas e a terem de enfrentar as vicissitudes da vida sem pejo, mas que, mesmo assim, um simples olhar ou sorriso faz toda a diferença, não é? Consegues sentir a força que o teu pai te dava sempre que tinhas uma desilusão daquelas do teu tamanho, pequenino, mas que para ti era uma autêntica tragédia? É um amor tão único e diferente sempre que entras naquela casa, aquela que já foi, em tempos, a tua casa, que ainda tem uns casacos pendurados no cabide, e umas almofadas no sofá que te fazem recuar no tempo em descansavas no sofá depois de uma noite de copos. Descansei contigo, agora, naquele sofá, acreditas? Senti o cheiro da tua sala onde jantavas com a família na noite de Natal, onde se abriam os sonhos de meninos embrulhados com os laços de cetim que te falei em tempos. Sentes a magia e o tal ingrediente de que te falo? Esse? Também esse amor se sente em cada palavra que trocas com os teus pais, agora já mais carimbados pelas rugas, mas com um sorriso rasgado sempre que te recebem nessa casa, na tua casa!
A viagem continua na aventura do lado de lá do nosso mundo. A primeira melhor amiga ou o melhor amigo, o primeiro amor, o primeiro namorado, o primeiro beijo, a primeira deceção, a primeira vitória! E diz-me lá se não há amor por aquele bilhete que escreves a dizer um «gosto muito de ti», diz-me lá se não há amor sempre que ajudas um colega teu a estudar, que te juntas àquele amigo que teve uma das maiores perdas da sua vida, quando um dos seus mais queridos se foi, simplesmente sem avisar. Aquela direta que fazes só para aturar uma das paranoias do teu colega de casa! A isso chamo de amor, sabes, dedicação, companheirismo e tenho a mania de juntar muitas palavras à área vocabular do amor!
São tantos os sentimentos a ele associados e são tantas as atitudes a ele inerentes. Não posso deixar de falar de um dos tipos de amor mais importante. O amor que damos e recebemos da criança, ou das crianças das nossas vidas! O amor que sentimos por aquela criança que nos toca a alma sempre que sorri para nós, sempre que nos abraça como só ela saber fazer. O nosso coração transborda sempre que ela diz «Gosto tanto de ti» ou quando escolhe ficar na nossa cama, agarradinha ao nosso pescoço, e não nos quer largar! Agarra-nos como se fôssemos o seu melhor tesouro de sempre. E não é essa uma das formas mais mágicas de amor? Quando entrelaçamos as mãos com aquela pessoa especial que nos atura até nos piores dias, aqueles em que nem tu próprio te aturas! Irra, que és irritante mesmo nesses teus dias, mas tens alguém que te segura o mundo e te transmite a paz, aquela paz que o teu ser anseia há tanto tempo. Diz-me lá, isso também não é amor?
E diz-me lá se não é amor, quando vens farto de um daqueles dias em que tudo te correu mal, até um pneu do carro se furou em plena autoestrada, o semáforo que avariou e te atrasaste para aquele compromisso em que já estavam dez pessoas à tua espera, e simplesmente tens aquela pessoa que te ouve e te absorve todas as energias negativas como se fosse uma esponja? Ficas leve e até respiras melhor, verdade? Ouvir, para mim, também é sinónimo de amor.
Chegas a uma fase da tua vida em que já não estás preocupado com o que os outros pensam, criaste e alcançaste um estatuto em que te são permitidas algumas coisas, a tua face está já riscada pelas linhas da vida, o teu sorriso está cansado das rasteiras que a vida te pregou, a tua alma está triste, mas tens uma garra impressionante e tocas a vida de quem se cruza contigo nesta viagem, na tua, na nossa viagem!
A viagem, onde, apesar de sermos passageiros deste comboio que vai passando pelas diferentes paragens, que vai apanhando e deixando passageiros em cada uma, é a viagem em que os nossos corpos e as nossas almas se vão cruzando com outros corpos e com outras almas, em que há aquelas que nos tocam ao primeiro olhar e aquelas com as quais já não nos queremos voltar a cruzar. Os degraus que caímos em cada paragem não nos matam à primeira vista. Há quem defenda que nos fortalecem, e eu acredito que sim, mas também nos vão matando aos poucos e, às vezes, esta morte interna é tão lenta e silenciosa que não se sente. Só te apercebes de que morreu um bocadinho de ti, quando finalmente descobres uma alegria interior que estava adormecida, e agora? Sentes-te vivo! E não é tão bom sentires-te assim? Respiras a vida e consigo respirar esse ar puro contigo. Sinto essa tua energia aqui. Estás iluminando e transpiras amor!
Tocas na mão mais nova do que tua e pedes paciência. «Tudo se resolve. Há que ter paciência!» E, para mim, também a paciência é sinónimo de amor. Ser paciente é ser amor na mais perfeita forma de amar alguma coisa ou de amar alguém!
E já me alonguei demais e, porventura, até me tornei repetitiva, mas nunca é demais relembrar que o amor derruba muros e constrói pontes. O amor sustenta até as obras menos sustentáveis. É a medição de superfície dos terrenos mais íngremes. É a onda mais perfeita do mar que nos abraça todos os dias. O amor são sorrisos, abraços, lágrimas sentidas e olhares profundos!
Amor é cuidar, partilhar, ouvir e sentir os outros como a nós mesmos. A nossa Cinderella, uma vez, disse-nos: «O amor é o maior segredo para tocar a vida dos outros.» E não achas que ela tem razão?
Ama muito. Dá-te sem medida. Toca a vida de quem passa por ti para que a tua passagem por esta vida não seja em vão. Toca a alma humana sendo, pura e simplesmente, outra alma humana! E como nos canta Salvador Sobral: «Não fazes favor nenhum em gostar de alguém, nem eu. Quem inventou o amor não fui eu, não fui eu, nem ninguém.»




