Os juncos

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Fotografia © Barby Dalbosco | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Barby Dalbosco | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Os tufos de juncos, colocados marginal e estrategicamente, protegiam a lagoa dos olhares curiosos ou talvez a intenção fosse mais subtil e pretendessem despertar a curiosidade dos que, distraidamente, por ali passavam. A sua disposição em jeito de ramalhete contrastava com o seu porte altivo e elegante, deixando as avezitas hesitantes antes que se decidissem a pousar nas suas balouçantes folhas finas. A culpa não era tanto dos juncos, mas do seu reflexo abundantemente reproduzido no espelho de água, roubando sem pudor a transparência às águas da lagoa. Os passaritos de olhitos iluminados pelo Sol, que lá do alto teimava em não descer, ficavam à toa, numa cegueira momentânea, quando se aproximavam do sombreado que cobria as águas juncosas. O chilrear cantante denunciava a sua presença e eram sempre os mais ousados, os primeiros a decidirem pousar nos caules finos, num equilíbrio débil tão alegre e colorido. Os juncos não descuravam a companhia franzina e periclitante das avezitas pois. Era com alguma expetativa que desejavam prolongar a sua permanência, o que não era difícil, quando ali lhes era especialmente favorável saciar as necessidades de alimento.

Os juncos emergiam hirtos num ambiente aquoso e oscilante que os deixava espantosamente inabaláveis. Os terrenos movediços, que se adivinhavam sob aquelas águas escuras e pouco profundas, não os demovia de ali tentarem a sua sorte. Os juncos erguiam-se confiantes, apontando ao Sol a sua razão de existir. A sombra, que rastejava junto das suas raízes submersas, obrigava-os a afastarem-se, o quanto lhes era fisicamente possível, da negridão que persistia em invadir o seu espaço; por isso, atingiam alturas que os distinguiam de outros habitantes do seu reino. O astro rei tinha o poder de transmutar a escuridão que envolvia a raiz da sua existência, no verde luminoso e intenso das suas folhas finas, mas seguras das suas pretensões. Aliada do Sol, a água da lagoa produzia ricochete em todas as direções, usando os raios de luz que lhe eram enviados, e a sua superfície prateava soltando aleatoriamente faíscas, tal varinha de condão, para num ato de pura magia criar vida na lagoa. Os juncos, sedentos do precioso líquido da vida, encontravam, na lagoa, os elementos que os engrandeciam, mantendo a flexibilidade necessária para dignificar a sua identidade e a dos outros habitantes.

Protegidos na escuridão que os juncos não eram capazes de expulsar, havia vida que despontava; a esperança vingava, apesar de tudo. Por entre os caules submersos nas águas da lagoa, aconteciam milagres de que os mais incrédulos duvidavam porque não alcançavam. Pequenos peixinhos, recém-saídos dos seus ovos, fervilhavam de vida aos pés dos verdejantes juncos, causando-lhes um formigueiro que despertava os juncos embalados pelas águas serenas da lagoa. A ondulação suave da água amaciava as folhas que despontavam do caule cilíndrico, em forma de tubo, para retirar da terra o alimento necessário para sobreviver naquele meio alagadiço. A maleabilidade da água desenhava curvas que se entrecruzavam de modo imprevisível, ligando tudo o que na lagoa existia, sem invadir pretensiosamente o que era inviolável. A água sabia como respeitar a natureza dos que haviam escolhido ali ficar. Sem esforço, rodeava os faustosos juncos, abrilhantando a luminosidade do seu verde intenso, repartido por cada folha fina que do alto dos seus caules despontava.

A altivez dos juncos não era imperial e os patos que passeavam pela lagoa reconheciam-lhe a singeleza que nas águas se espelhava, quando decidiam fazer dos seus caules marcos, numa serena corrida de entretenimento que fazia as suas delícias. Os patos deslizavam, rompendo os círculos que circundavam os tufos de juncos, fazendo estremecer as águas da lagoa tão leda nas suas contemplações de final de tarde. Aquelas corridas deslizantes não obedeciam às regras das corridas clássicas. O número de participantes variava desde que a rota começava a desenhar-se pelos primeiros a avançar; entradas tardias eram bem-vindas, sem descrédito para os que haviam demorado mais tempo a decidir-se e o abandono, antes de atingido o termo, era motivo de investidas pelo líder que com muita paciência os voltava a colocar em prova. O mais importante era sempre iniciar. Era uma prova que privilegiava o momento e o improviso e todos os patos reconheciam a peculiaridade daquelas regras tão pouco comuns. Não era uma anarquia. Era apenas o reconhecimento da individualidade de cada um e das suas necessidades. A natureza era cúmplice daquela forma de estar e conspirava a favor, tanto dos mais impetuosos, como dos mais receosos.

Os juncos tinham uma vida longa que se estendia para além da lagoa onde vingavam. A sua essência não morria naquelas águas fortificantes, repletas dos melhores fertilizantes. A sua existência perpetuava-se incessantemente na moldagem de lindas seiras, pelas mãos de quem descobria na natureza a fonte inspiradora para embelezar os seus dias. A flexibilidade dos juncos ganhava contornos imprevisíveis, quando mãos hábeis se deixavam levar pela potencialidade daquelas fibras com marcas inextinguíveis de vida que, após secos, adquiriam uma resistência única, impossível de quebrar. O vigor dourado que coloria as fibras, tatuadas com marcas únicas da vida na lagoa, orientava com mestria os dedos de quem as trabalhava, dobrando, volteando e retorcendo, para delas fazer um entrelaçado capaz de fazer soltar as exclamações mais sinceras de apreço pela obra de arte produzida. Os juncos rejubilavam com os admiradores que conquistavam. Eram tantas as mãos que se estendiam para disputar a pequena seira. Sentiam um formigueiro de cada vez que uma mão alcançava a alça entrançada da seira. Não estavam sós. Gostavam daquele contacto tátil que lhes devolvia a calmaria dos tempos em que viviam na lagoa. Agora que se haviam transformado numa linda seira, aspiravam fazer viagens que os levassem para lugares decerto tão ou mais bonitos que a lagoa. Não lhes era importante conhecer o nome. As viagens deixavam-nos empolgados perante a oportunidade de descobrir o que não conheciam. Haviam ganho a resistência necessária para não se deixarem assustar com o desconhecido; preferiam assim mesmo, a causalidade dava um colorido aos seus dias que os deixavam ainda mais deslumbrantes. E os que seguravam a seira, sem se aperceberem, transmutavam-se por via da energia fluída dos raios de Sol que impregnava os juncos secos que tinham, em si, as memórias de uma natureza viva e desperta.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.